Costa Dorata

Maquiné no Censo 2022: por que a cidade cresce diferente do litoral

Litoral norte gaúcho, como recorte regional, inclui um município sem orla marítima. Maquiné é vale, escarpa de serra e margem interna de lagoa, com cerca de 65% da população em área rural. O Censo 2022 do IBGE registra o efeito disso: crescimento de 6,14% entre 2010 e 2022, contra 20,47% a 51,80% das seis vizinhas de praia.

Parque de orla do Mônaco Grand Marina, em Maquiné, com gramados, marina de embarcações e clube ao entardecer junto à água navegável

Os números de Maquiné no Censo 2022

Maquiné tinha 7.418 habitantes quando o IBGE fechou a coleta do Censo Demográfico 2022, contra 6.989 em 2010. São 429 pessoas a mais em doze anos, ou 6,14%. Da população recenseada, 95,40% nasceram no Rio Grande do Sul, 2,59% nasceram em Santa Catarina e os 2,01% restantes somam todos os outros estados brasileiros e o exterior. Um quinto dos moradores, 20,01%, chegou ao município nos dez anos anteriores ao levantamento.

Colocados lado a lado com as outras seis cidades do litoral norte gaúcho medidas na mesma apuração, esses indicadores põem Maquiné em duas pontas opostas de ranking ao mesmo tempo.

Indicador Maquiné Posição entre as 7 cidades Extremo oposto
Crescimento 2010-2022+6,14%menor da regiãoImbé, +51,80%
População em 20227.418menor da regiãoCapão da Canoa, 63.594
Nascidos no RS95,40%maior da regiãoTorres, 88,50%
Nascidos em SC2,59%5ª entre as 6 com dadoTorres, 7,90%
Migrantes dos últimos 10 anos20,01%menor entre as 6 com dadoArroio do Sal, 44,3%

Maquiné é simultaneamente a cidade mais gaúcha de nascimento e a que menos renovou vizinhança no período. Imbé aparece com o crescimento mais alto da região e, ao mesmo tempo, ficou sem detalhamento de origem nesta apuração, então as comparações de nascimento e de migração recente valem para seis cidades, não para sete.

Maquiné cresceu no ritmo do Brasil e 3,5 vezes o do RS

A escala de comparação decide se 6,14% soa muito ou pouco. O Rio Grande do Sul cresceu 1,77% entre os dois censos, saindo de 10.693.929 para 10.882.965 habitantes. O Brasil cresceu 6,46%, de 190.755.799 para 203.080.756. Maquiné, com 6,14%, ficou a 0,32 ponto percentual do ritmo nacional e avançou cerca de 3,5 vezes mais rápido que o estado do qual faz parte.

Em pessoas, a distância para as vizinhas é outra ordem de grandeza. Capão da Canoa somou 21.554 moradores entre 2010 e 2022, cerca de cinquenta vezes o acréscimo de Maquiné. Torres somou 7.095, quase a população inteira de Maquiné em 2022. Tramandaí passou de 41.585 para 54.387 pessoas, e Xangri-lá de 12.434 para 16.463.

Quem lê a região por percentual encontra um município que destoa. Quem lê pelo estado encontra um município que cresce acima da média gaúcha em doze anos nos quais boa parte do interior do Rio Grande do Sul perdeu gente.

O que muda quando dois terços da população são rurais

Cerca de 65% da população de Maquiné vive em área rural, e essa é a linha que separa a cidade da dinâmica que move as vizinhas de praia. O motor demográfico do litoral norte gaúcho passa pelo estoque de segunda residência: Arroio do Sal tem 72,1% dos domicílios classificados como de uso ocasional, o maior percentual do Brasil no Censo 2022, e Xangri-lá aparece com 70,7%. São cidades com milhares de casas prontas, mobiliadas, sem morador habitual, prontas para receber alguém que decida ficar o ano inteiro. Esse mecanismo está detalhado no artigo sobre a casa de veraneio virando moradia fixa.

Maquiné não participa desse estoque. O município ficou sem o indicador de uso ocasional publicado nesta apuração, e a estrutura da cidade explica por quê: a base econômica é agrícola e ecoturística, a ocupação se espalha por distritos de vale e a sede tem comércio dimensionado para pouco mais de sete mil pessoas, como descreve o guia de Maquiné. Em cidade assim, morador novo depende de casa construída ou de trabalho criado, e as duas coisas andam num compasso mais lento que o da conversão de uma casa de praia já erguida.

Nada disso é atraso: é vocação diferente. As cachoeiras do distrito de Barra do Ouro, a produção de hortaliças e a mata que cobre a escarpa da serra sustentam uma economia que existe há décadas e não depende de temporada de verão para funcionar.

95,40% nasceram no Rio Grande do Sul, a maior fatia da região

Nenhuma das outras seis cidades chega perto desse número. Xangri-lá tem 90,09% de nascidos no estado, Capão da Canoa 92,46%, Arroio do Sal 92,70%, Tramandaí 94,77% e Torres 88,50%. A presença catarinense em Maquiné, 2,59%, só não é a menor da região porque Tramandaí registra 2,48%, e fica a menos de um terço da marca de Torres, que faz divisa com Santa Catarina.

O recorte de migração recente vai na mesma direção com força ainda maior: entre os moradores que chegaram a Maquiné nos dez anos anteriores ao Censo, 92,70% vieram de dentro do próprio Rio Grande do Sul. O perfil de quem se muda para lá se parece com o de quem se muda dentro do interior gaúcho, e não com o de quem cruza fronteira estadual atrás de praia.

Vale registrar o limite do indicador antes de esticar a conclusão. O Censo 2022 não republicou a tabela de naturais do próprio município nesse nível, então o percentual disponível conta qualquer pessoa nascida em qualquer cidade gaúcha, de Bagé a Caxias do Sul. Os 95,40% dizem que Maquiné é gaúcha de nascimento, e não que 95,40% dos moradores nasceram em Maquiné. O SIDRA também desagrega origem apenas por unidade da federação, então não há como saber quantos vieram de Porto Alegre, de Osório ou de Terra de Areia.

No agregado, o estado inteiro corre no sentido contrário: o Rio Grande do Sul teve saldo migratório negativo de 77.839 pessoas entre 2017 e 2022, e 63,5% de quem saiu foi para Santa Catarina, segundo o caderno "RS no Censo 2022: Migração e Fecundidade", do Departamento de Economia e Estatística da SPGG-RS, de novembro de 2025. Maquiné cresce dentro de um estado que perde gente, e esse crescimento vem quase todo de gaúcho que troca de município. O panorama das sete cidades trata esse paradoxo em detalhe.

Um em cada cinco moradores chegou nos últimos dez anos

Os 20,01% de migração recente de Maquiné são a menor taxa entre as seis cidades com dado publicado, abaixo de Arroio do Sal (44,3%), Xangri-lá (34,66%), Capão da Canoa (32,5%), Tramandaí (31,15%) e Torres (30,07%). Lido isolado, o número parece pequeno. Lido como fração da própria cidade, ele diz que um em cada cinco moradores de Maquiné não estava ali dez anos antes.

A comparação entre os dois indicadores rende uma leitura que o percentual de crescimento esconde. Aplicados aos 7.418 habitantes, esses 20,01% correspondem a cerca de 1.484 pessoas chegadas na janela de dez anos, contra um saldo líquido de 429 moradores em doze anos. As janelas são diferentes e o saldo também responde a nascimentos e óbitos, mas a ordem de grandeza é clara: chega a Maquiné bem mais gente do que o saldo de doze anos deixa ver.

Por que os três condomínios de Maquiné ficam na lagoa

A geografia que explica a demografia explica também o produto imobiliário da cidade. A cidade tem margem de lagoa, canal e rio para vender, e nenhum quilômetro de orla marítima. Os três condomínios fechados do município acompanham essa linha de água, todos em obras, todos organizados em torno de marina.

O Mônaco Grand Marina, da D1 Empreendimentos, tem 367 lotes de 335 a 1.345 m² e 12 hectares de lagos navegáveis ligados à Lagoa dos Quadros, com clube de 5.435 m². O Brávia Marina & Beach Club, da AMIS Incorporadora & Urbanizadora, reúne mais de 450 lotes de 360 a 670 m², marina com pieres, praia artificial, heliponto e um beach club à beira-mar em Atlântida, fora do município. O La Marina Reserva, da J&J Incorporações e Participações, ocupa 15,8 hectares junto à Lagoa das Malvas, com 219 lotes de 300 a 647 m², marina interna, 36 garagens náuticas e píer com farol. A comparação lado a lado dos três está no guia dos condomínios fechados em Maquiné.

Somados, os três passam de mil lotes num município que ganhou 429 moradores entre os dois censos. O contraste é grande e pede cautela na leitura: lote vendido não vira morador de Censo no ano seguinte. Boa parte desse produto nasce como segunda residência, a construção da casa depende do prazo de cada comprador e a entrega dos condomínios se distribui ao longo dos próximos anos. O que a comparação mostra é a natureza do movimento imobiliário de Maquiné, que roda numa escala desproporcional à cidade e num compartimento distinto do dela, a faixa lagunar, a poucos minutos dos balneários e a mais de uma hora de qualquer cidade grande.

Para quem procura água navegável, esse compartimento é o ativo. A lista viva dos empreendimentos está na página de Maquiné, e o desenho regional dessa expansão, incluindo Osório, está no artigo sobre a nova fronteira dos condomínios do litoral norte.

O que este retrato não mede

Três ressalvas acompanham qualquer uso dos números acima. A primeira é de calendário: o Censo fotografou a população em agosto de 2022, quase dois anos antes das enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, e o deslocamento posterior ao desastre não aparece em dado censitário oficial, como mostra o levantamento sobre o que se sabe da migração pós-enchentes. A segunda é de cobertura: sem o indicador de uso ocasional publicado para Maquiné, não dá para medir quanto do estoque de moradias do município é de veraneio, e a leitura de que a cidade está fora dessa dinâmica se apoia no perfil rural e no crescimento observado, não numa medição direta.

A terceira separa dois assuntos que costumam ser confundidos. O retrato demográfico de Maquiné está completo e é oficial. O retrato de mercado, não: a série de preços do município é curta demais para virar taxa anual de valorização, razão pela qual o portal publica variação de tabela por período em vez de percentual ao ano, conforme detalhado na análise dos reajustes de tabela da cidade. Uma limitação é sobre transação imobiliária, a outra sobre gente, e elas não se contaminam.

Fonte dos dados demográficos: IBGE, Censo Demográfico 2010 e 2022, via SIDRA, sistema de recuperação automática do IBGE (tabelas 202, 631, 3182, 4709, 9866, 10158, 10159 e 10160). Contexto de saldo migratório estadual: caderno "RS no Censo 2022: Migração e Fecundidade", DEE/SPGG-RS, novembro de 2025. O percentual de nascidos fora do RS e de SC é o complemento aritmético dos dois percentuais publicados por cidade; as razões entre indicadores foram calculadas sobre os valores publicados.

Perguntas frequentes

Quantos habitantes tem Maquiné segundo o Censo 2022?

Maquiné tem 7.418 habitantes no Censo Demográfico 2022 do IBGE, contra 6.989 em 2010. São 429 pessoas a mais em doze anos, alta de 6,14%. É a menor população entre as sete cidades do litoral norte gaúcho levantadas nessa apuração: Capão da Canoa, a maior delas, chegou a 63.594 moradores.

Por que Maquiné cresceu menos que Capão da Canoa e Xangri-lá?

Porque Maquiné é um município majoritariamente rural, com cerca de 65% da população vivendo fora da área urbana, e está fora da dinâmica de segunda residência litorânea que move as vizinhas de praia. Entre 2010 e 2022, Capão da Canoa cresceu 51,27% e Xangri-lá 32,41%, enquanto Maquiné avançou 6,14%. As duas primeiras têm estoque de casa de veraneio em proporção recorde, e Maquiné não tem esse estoque.

Maquiné cresceu pouco em relação ao Brasil e ao Rio Grande do Sul?

Não. Os 6,14% de Maquiné entre 2010 e 2022 ficam praticamente no ritmo brasileiro, que foi de 6,46% no mesmo período, e equivalem a cerca de 3,5 vezes o crescimento do Rio Grande do Sul, que foi de 1,77%. O município cresce devagar apenas quando comparado às cidades de praia vizinhas, que avançaram de 20,47% a 51,80%.

De onde vêm os moradores de Maquiné?

Do próprio estado. No Censo 2022, 95,40% dos moradores de Maquiné nasceram no Rio Grande do Sul, a maior fatia entre as sete cidades do litoral norte gaúcho medidas, e 2,59% nasceram em Santa Catarina. Entre quem chegou ao município nos dez anos anteriores ao Censo, 92,70% veio de dentro do próprio Rio Grande do Sul. O SIDRA informa apenas o estado de nascimento, nunca a cidade de origem.

Onde ficam os condomínios fechados de Maquiné?

Na porção lagunar do município, não na orla marítima, porque Maquiné não tem frente para o oceano. Os três condomínios fechados de lotes da cidade estão junto às lagoas: o Mônaco Grand Marina, com 367 lotes e lagos ligados à Lagoa dos Quadros, o Brávia Marina & Beach Club, com mais de 450 lotes e marina, e o La Marina Reserva, com 219 lotes junto à Lagoa das Malvas. Os três estão em obras.