Costa Dorata

Migração ao litoral norte gaúcho depois das enchentes de 2024

Onda migratória para o litoral, expressão que passou a circular depois de maio de 2024, junta três movimentos distintos: a fuga emergencial da água, a permanência de alguns meses e a troca definitiva de domicílio. Só a terceira é migração no sentido estatístico, e é justamente a que nenhum levantamento oficial mediu no destino até aqui.

Vista aérea da faixa do litoral norte gaúcho entre a lagoa e o mar, com condomínio fechado, campos e a mancha urbana de Capão da Canoa ao fundo

A semana em que Capão da Canoa contou quatro vezes a própria população

Na segunda semana de maio de 2024, com a Região Metropolitana de Porto Alegre debaixo d'água, a faixa litorânea virou destino de saída. O Correio Braziliense publicou em 15 de maio uma reportagem de rua em Capão da Canoa com três ordens de grandeza empilhadas: 2 mil pessoas que a prefeitura afirmava ter passado por acolhimento, cerca de 5 mil na casa de familiares e amigos, e a estimativa de que 150 mil pessoas com residência litorânea também tivessem se transferido. O total apresentado pela reportagem passava de 200 mil pessoas concentradas na cidade.

No dia seguinte, o SBT News publicou a conta em outra escala: a ocupação teria saído de cerca de 80 mil para perto de 300 mil pessoas, segundo Augusto Cesar Roesler, presidente da Associação Comercial de Capão da Canoa e Xangri-lá. Duas reportagens, 24 horas de diferença, 100 mil pessoas de distância entre uma cifra e outra.

A diferença não desqualifica nenhuma das duas. Ela indica o que elas são: estimativas de ocupação feitas no meio de uma emergência, sem metodologia publicada e sem cadastro que as sustente. Dos números daquela semana, o único com origem declarada é o das 2 mil pessoas em acolhimento, atribuído à prefeitura. Os 150 mil aparecem na reportagem como estimativa, sem órgão responsável nomeado.

Os indícios mais duros da semana são de consumo, não de população. Roesler relatou movimento dobrado nos restaurantes, alta de 70% no consumo de água potável e de 50% em combustível e mercado. Consumo mede presença de gente na cidade em maio. Não distingue quem passou dez dias de quem nunca mais voltou.

Tramandaí, 13 mil acolhidos e um número que mudou em três meses

O dado mais reproduzido sobre permanência veio de Tramandaí, e vale acompanhar como ele se comportou ao longo de 2024. Em 3 de setembro daquele ano, o Jornal do Comércio publicou reportagem sobre a revisão do plano diretor da cidade citando que o município recebeu mais de 13 mil pessoas durante as cheias e que ao menos 2 mil decidiram adotar Tramandaí como novo endereço. Na mesma matéria, o prefeito Luiz Carlos Gauto afirmava que o município cresce cerca de três mil moradores por ano desde a pandemia, saindo de 51 mil habitantes em 2019 para perto de 57 mil em 2024.

Em 6 de dezembro de 2024, o mesmo jornal voltou ao tema com outro recorte, agora citando a Secretaria Municipal de Administração: "Tramandaí cadastrou 13 mil pessoas acolhidas durante as cheias. Deste volume, 3 mil ficaram por lá". Mesma publicação, mesma cidade, três meses de intervalo, e o número de permanências subiu de 2 mil para 3 mil.

Isso é o comportamento normal de um registro administrativo. O cadastro de acolhimento de uma prefeitura existe para organizar assistência, não para medir migração: ele é atualizado conforme famílias voltam a aparecer no atendimento, conforme a rede escolar recebe transferência, conforme alguém pede regularização de endereço. Cresce e encolhe por rotina de gestão. Quem usa "2 mil" ou "3 mil" como se fosse contagem populacional está tratando um documento de assistência social como se fosse levantamento demográfico.

O Censo 2022 fechou o retrato 21 meses antes da água

Antes de discutir o efeito da enchente, convém fixar de onde partia a curva. O Censo Demográfico do IBGE tem data de referência em agosto de 2022, cerca de 21 meses antes das cheias de abril e maio de 2024. Ele já mostrava o litoral norte crescendo em ritmo que nenhuma outra parte do Rio Grande do Sul alcançava: Imbé 51,80%, Capão da Canoa 51,27%, Arroio do Sal 42,86%, Xangri-lá 32,41%, Tramandaí 30,79% e Torres 20,47% entre 2010 e 2022, contra 1,77% do estado inteiro e 6,46% do Brasil.

Esses percentuais descrevem um movimento que já corria havia mais de uma década, alimentado por gaúchos que trocavam de município dentro do próprio estado, como detalha o panorama de migração das sete cidades pelo Censo 2022. Tratar maio de 2024 como origem do fenômeno inverte a ordem dos fatos. A pergunta em aberto é de intensidade, não de existência: quanto a tragédia acelerou uma curva que já subia.

A estimativa de 2025 não enxerga o que a prefeitura conta

Depois do Censo, o único número populacional oficial que sai todo ano é a estimativa municipal do IBGE. Ela tem data de referência em 1º de julho, é publicada no Diário Oficial da União e serve de base legal para o cálculo do repasse do Fundo de Participação dos Municípios. E é um cálculo demográfico derivado dos censos anteriores e das estatísticas de registro civil, pelo método das relações de coortes. Ninguém bate na porta.

Cidade Censo 2022 Estimativa 2024 Estimativa 2025 Variação 2024-2025
Capão da Canoa63.59466.01266.234+222
Tramandaí54.38756.29656.430+134
Osório47.39648.92948.999+70
Torres41.75143.26843.344+76
Imbé26.82427.93128.027+96
Xangri-lá16.46316.90716.949+42
Arroio do Sal11.05711.38411.418+34
Maquiné7.4187.5887.593+5

A coluna da direita é o ponto. Na conta oficial, Tramandaí ganhou 134 moradores entre 1º de julho de 2024 e 1º de julho de 2025, período que cobre o primeiro ano inteiro depois da enchente. No mesmo intervalo, a prefeitura da cidade descrevia um ganho anual na casa dos três mil. Xangri-lá aparece com 42 pessoas a mais, Arroio do Sal com 34, Maquiné com 5. São variações compatíveis com vegetativo puro, o resultado esperado de uma fórmula que projeta tendência e não registra choque.

Há um teste histórico de quanto essa mecânica pode divergir da contagem de rua, e ele vem das mesmas cidades. A estimativa de 1º de julho de 2021 apontava 17.126 moradores em Xangri-lá. Treze meses depois, o recenseador foi à casa das pessoas e contou 16.463, cerca de 4% menos. A distância entre a fórmula e a contagem, naquele caso, foi maior do que todo o ganho estimado para a cidade entre 2022 e 2025.

A PEERS mediu quem saiu de casa, e não para onde foi

Em 1º de julho de 2026, o IBGE divulgou a primeira medição oficial dedicada ao desastre: a Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, de caráter experimental, com coleta domiciliar feita entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026 em 133 municípios das áreas mais atingidas. É o primeiro levantamento domiciliar que o instituto realiza exclusivamente para dimensionar os impactos sociais de um desastre natural no país.

Os resultados divulgados: 6.333.727 pessoas atingidas pelas chuvas; 2.328.093 domicílios nas áreas de maior impacto, dos quais 81.272 destruídos (3,5%) e 190.253 muito danificados (8,2%); 922.233 pessoas, ou 14,6% da população pesquisada, mudaram de endereço depois do desastre; e 349.366 delas, 37,9% desse grupo e 5,5% da população dos 133 municípios, apontaram a enchente como motivo da mudança. Entre quem se mudou por causa da água, 90,6% moravam em imóvel que sofreu dano estrutural, e 28,3% viviam com renda domiciliar de até R$ 2 mil, proporção acima dos 24% observados no conjunto pesquisado.

Aqui está o limite que interessa a quem olha para a costa. O universo da pesquisa não é o litoral norte, é a área atingida: os 133 municípios estão nas regiões intermediárias de Porto Alegre, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul e Lajeado, Pelotas, Santa Maria, Uruguaiana, Ijuí e Passo Fundo. A PEERS pergunta a quem sofreu a cheia se precisou trocar de endereço e por quê. Os resultados publicados não abrem o município de chegada. Existe, agora, um número oficial de quantos gaúchos saíram de casa por causa da enchente. Continua não existindo um número oficial de quantos chegaram a Capão da Canoa, a Tramandaí ou a Imbé. A metodologia e as tabelas estão no portal da PEERS no IBGE.

As casas fechadas que absorveram o deslocamento

Um detalhe do retrato censitário ajuda a entender por que a costa conseguiu receber tanta gente em poucos dias sem colapsar em abrigos. Arroio do Sal é o município número 1 do Brasil em proporção de domicílios de uso ocasional, com 72,1%, e Xangri-lá aparece com 70,7%, conforme o Censo 2022. Sete em cada dez casas dessas cidades têm dono e ficam fechadas fora da temporada, situação detalhada no artigo sobre casa de veraneio virando moradia fixa.

Essa é a leitura possível dos 150 mil da reportagem de maio: gente que desceu para um imóvel próprio, com chave na mão, sem passar por cadastro de acolhimento e sem gerar registro em lugar nenhum. Um estoque construído para sessenta dias de uso por ano funcionou como capacidade de abrigo instalada.

O que os dois registros permitem afirmar é que são compatíveis, e compatibilidade não é confirmação. O Censo conta imóveis num instante de agosto de 2022; a reportagem descreve uso numa semana de maio de 2024. Nenhum dos dois acompanha a mesma casa ao longo do tempo, então nenhum deles diz quantas dessas portas continuaram abertas em 2025 e 2026. É a mesma lacuna que aparece quando se pergunta quantos condomínios fechados de Capão da Canoa passaram de uso de verão a endereço fixo depois da tragédia.

O que faltaria para transformar relato em dado

Três caminhos fechariam a conta, e nenhum deles está percorrido. O mais direto seria o recorte de destino dentro da própria PEERS: o IBGE já tem em mãos o domicílio de quem declarou ter mudado de endereço, e a distribuição desses destinos por município de chegada responderia a pergunta em uma tabela. O segundo passa por registro administrativo tratado com honestidade metodológica, matrícula escolar, cadastro do SUS, transferência de título eleitoral, séries que sinalizam movimento real mas carregam subcobertura, atraso e dupla contagem conhecidos, e que por isso servem como indício e nunca como medida. O terceiro é esperar: a pergunta censitária sobre onde a pessoa morava anos antes só volta ao campo no Censo 2030.

Enquanto isso, o cuidado prático para quem lê número sobre o assunto é checar a data de referência antes da cifra. O Censo descreve agosto de 2022. A estimativa municipal descreve 1º de julho do ano em que foi calculada, com uma fórmula ancorada em 2010 e 2022. A PEERS descreve as áreas atingidas, não a costa. Um número pode estar correto e mesmo assim responder a outra pergunta.

No mesmo 1º de julho em que divulgou a PEERS, o IBGE colocou no ar o Singed Lab Desastres, plataforma de dado geocientífico feita para municípios montarem comissões de prevenção antes do próximo evento extremo, com atenção declarada à probabilidade de El Niño ao longo de 2026. É uma camada de informação que o país não tinha em maio de 2024, e que serve para antecipar a próxima cheia. Reconstituir o trajeto de quem trocou de cidade na última depende de uma pergunta feita a quem chegou, e ela ainda não foi feita em nenhuma cidade da costa.

Fontes. Dados censitários e estimativas: IBGE, Censo Demográfico 2010 e 2022 e Estimativas da População 2021, 2024 e 2025, via SIDRA, sistema de recuperação automática do IBGE. Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS), IBGE, divulgada em 1º de julho de 2026. Relatos do evento de maio de 2024: Correio Braziliense, "Litoral do RS tem cidade superlotada com vítimas das enchentes", 15/05/2024; SBT News, 16/05/2024, com declarações de Augusto Cesar Roesler; Jornal do Comércio, 03/09/2024 (plano diretor de Tramandaí, com o prefeito Luiz Carlos Gauto) e 06/12/2024 (Secretaria Municipal de Administração de Tramandaí). Os números de maio de 2024 e os de permanência em Tramandaí são de origem jornalística e administrativa, sujeitos a revisão, e não têm equivalente censitário.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas passaram a morar no litoral norte gaúcho por causa das enchentes de 2024?

Não existe número oficial. Nenhum levantamento público mede o município de destino de quem se mudou depois da tragédia. O relato mais citado vem de Tramandaí, que cadastrou 13 mil pessoas acolhidas durante as cheias: o Jornal do Comércio publicou em setembro de 2024 que ao menos 2 mil ficaram na cidade e, em dezembro do mesmo ano, que 3 mil ficaram. São registros administrativos da prefeitura, não estatística censitária.

Por que o Censo 2022 não mostra a migração provocada pelas enchentes de 2024?

Porque o Censo Demográfico fotografou a população em agosto de 2022, cerca de 21 meses antes das cheias de abril e maio de 2024. Todo percentual de crescimento, origem e migração recente publicado a partir dele descreve o litoral norte antes do evento. O próximo levantamento universal do IBGE está previsto para 2030.

O que a pesquisa PEERS do IBGE mediu sobre as enchentes de 2024 no RS?

A Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, divulgada em 1º de julho de 2026, ouviu domicílios de 133 municípios das áreas mais atingidas entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026. Apurou 6.333.727 pessoas atingidas, 922.233 delas (14,6%) mudaram de endereço depois do desastre e 349.366 apontaram a enchente como motivo da mudança. A pesquisa cobre a área atingida, então quantifica quem saiu, não para onde foi.

As estimativas anuais do IBGE captam a chegada de novos moradores ao litoral norte?

Não de forma direta. As estimativas municipais são um cálculo demográfico derivado dos censos anteriores e das estatísticas vitais, com data de referência em 1º de julho e finalidade legal de cálculo do Fundo de Participação dos Municípios. Entre a estimativa de 2024 e a de 2025, Tramandaí subiu de 56.296 para 56.430 habitantes, 134 pessoas, enquanto a prefeitura falava em três mil moradores novos por ano.

Que dado ainda falta para medir a migração para o litoral norte depois de 2024?

Falta o recorte de destino: um levantamento que pergunte a quem chegou de onde veio e quando, no próprio município de chegada. Registros administrativos como matrícula escolar, cadastro do SUS e transferência de título eleitoral funcionam como indício, com viés conhecido de subcobertura e atraso. A pergunta censitária sobre residência anterior só volta ao campo no Censo 2030.