Migração ao litoral norte gaúcho depois das enchentes de 2024
Quem desceu a Estrada do Mar na semana em que a Região Metropolitana de Porto Alegre ficou debaixo d’água encontrou fila no posto, gôndola vazia no mercado e casa de veraneio com luz acesa em dia útil. Cada cifra publicada sobre aquela chegada mede uma coisa diferente, e o município de destino de quem ficou segue fora de todas elas.
Em uma semana, Capão da Canoa apareceu com três populações diferentes
A cena tem data. Em 15 de maio de 2024, o Correio Braziliense publicou uma reportagem de rua em Capão da Canoa com três cifras empilhadas: 2 mil pessoas que a prefeitura afirmava terem passado por acolhimento, outras 5 mil hospedadas na casa de familiares e amigos, e uma estimativa de 150 mil pessoas com residência litorânea que também teriam se transferido. A reportagem fechava a conta em mais de 200 mil pessoas concentradas na cidade. Na mesma matéria, o secretário municipal de Turismo, Marcelo Ramos, descrevia a movimentação beirando 300 mil pessoas.
No dia seguinte, o SBT News ouviu Augusto Cesar Roesler, presidente da Associação Comercial de Capão da Canoa e Xangri-Lá, para quem a ocupação do município tinha saído de cerca de 80 mil para quase 300 mil pessoas. Roesler relatou movimento dobrado nos restaurantes, alta de 70% no consumo de água potável e de 50% em combustível e em mercado, e previa mais sessenta dias recebendo gente.
Dessas cifras, a que tem origem declarada é a das 2 mil pessoas em acolhimento, atribuída à prefeitura. As 150 mil aparecem na reportagem como estimativa, sem órgão responsável nomeado. As 300 mil chegam por duas falas que descrevem impressão de rua, a do secretário de Turismo e a do presidente da Associação Comercial. Até a linha de base muda conforme quem fala: o Censo 2022 do IBGE contou 63.594 moradores em Capão da Canoa, a legenda de foto do Correio Braziliense falava em cerca de 68 mil e Roesler partia de 80 mil.
Os indícios mais firmes daquela semana vêm do consumo, e todos foram relatados pela Associação Comercial: água, combustível, caixa de restaurante. Eles medem quanta gente estava na cidade em maio de 2024. Quem passou dez dias e quem nunca mais voltou entram na mesma conta.
Tramandaí cadastrou 13 mil acolhidos, e a permanência foi recontada em dezembro
O dado mais reproduzido sobre permanência veio de Tramandaí, e mudou de tamanho ao longo de 2024. Em 3 de setembro daquele ano, o Jornal do Comércio publicou reportagem sobre a revisão do plano diretor da cidade informando que o município recebeu mais de 13 mil pessoas durante as cheias e que ao menos 2 mil decidiram adotar Tramandaí como novo endereço. Na mesma matéria, o prefeito Luiz Carlos Gauto afirmava que a cidade cresce cerca de três mil moradores por ano desde a pandemia, saindo de 51 mil habitantes em 2019 para perto de 57 mil em 2024.
Em 6 de dezembro de 2024, o mesmo jornal voltou ao tema citando a Secretaria Municipal de Administração de Tramandaí: o município cadastrou 13 mil pessoas acolhidas durante as cheias, e desse volume 3 mil ficaram por lá. Mesma publicação, mesma cidade, três meses de intervalo, e a permanência relatada subiu de 2 mil para 3 mil.
Esse é o comportamento esperado de um registro administrativo. O cadastro de acolhimento de uma prefeitura serve para organizar assistência: ele é atualizado conforme famílias voltam a aparecer no atendimento, conforme a rede escolar recebe transferência, conforme alguém pede regularização de endereço. Cresce e encolhe por rotina de gestão. Tratar 2 mil ou 3 mil como contagem populacional dá a um documento de assistência social o peso de um levantamento demográfico, instrumento com outra amostra, outra metodologia e outra data de referência.
De onde partia a curva: o Censo fechou o retrato em 31 de julho de 2022
Antes de discutir o efeito da enchente, convém fixar o ponto de partida. O Censo Demográfico do IBGE tem data de referência em 31 de julho de 2022, cerca de 21 meses antes do início das cheias, em abril de 2024. Ele já mostrava o litoral norte crescendo entre 2010 e 2022 muito acima da média do estado e da média do país: Imbé 51,81%, Capão da Canoa 51,27%, Arroio do Sal 42,86%, Xangri-Lá 32,40%, Tramandaí 30,79% e Torres 20,47%, contra 1,77% do estado inteiro e 6,46% do Brasil.
Esses percentuais descrevem um movimento que já corria havia mais de uma década, alimentado por gaúchos que trocavam de município dentro do próprio estado. Os denominadores de cada indicador e as origens cidade por cidade estão abertos no panorama de migração das sete cidades pelo Censo 2022. Maio de 2024 pegou essa curva em andamento, e a pergunta em aberto trata de intensidade: quanto a tragédia acelerou uma subida que já vinha de antes.
A estimativa municipal do IBGE projeta a tendência do Censo anterior
Depois do Censo, o único número populacional oficial que sai todo ano é a estimativa municipal do IBGE. Ela tem data de referência em 1º de julho, é publicada no Diário Oficial da União e serve de base legal para o cálculo do repasse do Fundo de Participação dos Municípios. O valor sai de um cálculo demográfico derivado dos censos anteriores e das estatísticas de registro civil, pelo método das relações de coortes. Ninguém bate na porta.
| Cidade | Censo 2022 | Estimativa 2024 | Estimativa 2025 | Variação 2024-2025 |
|---|---|---|---|---|
| Capão da Canoa | 63.594 | 66.012 | 66.234 | +222 |
| Tramandaí | 54.387 | 56.296 | 56.430 | +134 |
| Osório | 47.396 | 48.929 | 48.999 | +70 |
| Torres | 41.751 | 43.268 | 43.344 | +76 |
| Imbé | 26.824 | 27.931 | 28.027 | +96 |
| Xangri-Lá | 16.463 | 16.907 | 16.949 | +42 |
| Arroio do Sal | 11.057 | 11.384 | 11.418 | +34 |
| Maquiné | 7.418 | 7.588 | 7.593 | +5 |
A coluna da direita é o ponto. Na conta oficial, Tramandaí ganhou 134 moradores entre 1º de julho de 2024 e 1º de julho de 2025, período que cobre o primeiro ano inteiro depois da enchente, enquanto a prefeitura da cidade descrevia um ganho anual na casa dos três mil. Xangri-Lá aparece com 42 pessoas a mais, Arroio do Sal com 34, Maquiné com 5. São variações compatíveis com crescimento vegetativo, o resultado que uma fórmula de projeção de tendência produz diante de um choque.
Há um teste histórico de quanto essa mecânica pode divergir da contagem de rua, e ele vem das mesmas cidades. A estimativa de 1º de julho de 2021 apontava 17.126 moradores em Xangri-Lá. Treze meses depois, o recenseador foi à casa das pessoas e contou 16.463, cerca de 4% menos. A distância entre a fórmula e a contagem, naquele caso, superou todo o ganho estimado para a cidade entre 2022 e 2025.
A PEERS mediu 922.233 mudanças de endereço dentro da área atingida
Em 1º de julho de 2026, o IBGE divulgou a primeira medição oficial dedicada ao desastre: a Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, de caráter experimental, com coleta domiciliar feita entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026 em 133 municípios das áreas mais atingidas. É o primeiro levantamento domiciliar que o instituto realiza exclusivamente para dimensionar os impactos sociais de um desastre natural no país.
Os resultados divulgados: 6.333.727 pessoas atingidas pelas chuvas; 81.272 domicílios destruídos, 3,5% dos domicílios das áreas de maior impacto, e 190.253 muito danificados, 8,2%; 922.233 pessoas, 14,6% da população pesquisada, com mudança de endereço depois do desastre; e 349.366 delas, 37,9% desse grupo, apontando a enchente como motivo da mudança. Entre quem se mudou por causa da água, 90,6% moravam em imóvel que sofreu dano estrutural, e 28,3% viviam com renda domiciliar de até dois mil reais.
O limite que interessa a quem olha para a costa está no universo da pesquisa. A PEERS cobre as áreas atingidas pelas cheias de abril e maio de 2024, o lugar de onde as pessoas saíram, e pergunta a quem sofreu a água se precisou trocar de endereço e por quê. A coleta correu em domicílios situados dentro dessas áreas, entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026, mais de um ano depois das cheias. Quem se mudou para fora da região atingida deixou de estar lá para responder, o que faz de 349.366 um piso: o total efetivo fica acima desse valor, e a pesquisa não oferece meio de dimensionar a diferença. Os resultados publicados param aí: o município de chegada fica fora das tabelas. Existe hoje um número oficial de quantos gaúchos deixaram suas casas por causa da enchente, e um número oficial de quantos chegaram a Capão da Canoa, a Tramandaí ou a Imbé continua inexistente. A metodologia e as tabelas estão no portal da PEERS no IBGE.
O estoque de casa fechada que a costa já tinha em maio
Um detalhe do retrato censitário ajuda a entender como a costa abrigou tanta gente em poucos dias com poucos abrigos formais. Arroio do Sal fechou 2022 com 72,40% dos seus domicílios particulares permanentes na condição de uso ocasional, a maior proporção entre os 5.570 municípios do país, e Xangri-Lá com 70,75%, conforme o Censo 2022. Sete em cada dez casas dessas duas cidades têm dono e ficam fechadas fora da temporada, situação detalhada no artigo sobre casa de veraneio virando moradia fixa.
Daí sai uma hipótese para as 150 mil pessoas da reportagem de maio: gente que desceu para um imóvel próprio, com chave na mão, sem passar por cadastro de acolhimento e sem gerar registro em lugar nenhum. Um estoque construído para sessenta dias de uso por ano funcionou como capacidade de abrigo já instalada, e famílias inteiras atravessaram semanas duras dentro dele.
Os dois registros são compatíveis entre si, e compatibilidade fica longe de confirmação. O Censo conta imóveis num instante de julho de 2022; a reportagem descreve uso numa semana de maio de 2024. Nenhum dos dois acompanha a mesma casa ao longo do tempo, então nenhum deles diz quantas dessas portas continuaram abertas em 2025 e 2026. A mesma lacuna aparece quando se pergunta quantas casas em condomínio fechado de Capão da Canoa passaram de uso de verão a endereço fixo desde então.
O recorte de destino que ainda falta
Três caminhos fechariam a conta, e nenhum deles está percorrido. O mais direto seria o recorte de destino dentro da própria PEERS: o IBGE já tem em mãos o domicílio de quem declarou ter mudado de endereço, e a distribuição desses destinos por município de chegada caberia em uma tabela. O segundo passa por registro administrativo tratado com honestidade metodológica, como matrícula escolar, cadastro do SUS e transferência de título eleitoral, séries que sinalizam movimento real e carregam subcobertura, atraso e dupla contagem conhecidos, o que as mantém no terreno do indício. O terceiro é esperar: a pergunta censitária sobre onde a pessoa morava anos antes só volta ao campo no Censo 2030.
No mesmo 1º de julho em que a PEERS foi divulgada, entrou em operação o Singed Lab Desastres, plataforma de dado geocientífico anunciada pelo IBGE em 23 de junho de 2026 para que municípios montem comissões de prevenção antes do próximo evento extremo, com atenção declarada à probabilidade de El Niño ao longo de 2026. É uma camada de informação que o país não tinha em maio de 2024, voltada para antecipar a próxima cheia.
Para quem se depara com uma cifra sobre o assunto, o próximo passo prático é ir à fonte antes de repetir o número: a estimativa municipal de cada cidade está publicada no SIDRA e as tabelas da pesquisa sobre as enchentes estão no portal da PEERS, com a data de referência ao lado do valor nos dois casos. Quem estiver avaliando morar na região pode dar um passo a mais e pedir à secretaria municipal de educação a série de matrículas da rede ano a ano, depois comparar essa curva local com a estimativa oficial da mesma cidade no período.
Fontes. Dados censitários e estimativas: IBGE, Censo Demográfico 2010 e 2022 e Estimativas da População 2021, 2024 e 2025, via SIDRA, sistema de recuperação automática do IBGE. Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS), IBGE, divulgada em 1º de julho de 2026. Singed Lab Desastres, IBGE, anunciado em 23 de junho de 2026 e em operação desde 1º de julho de 2026. Relatos do evento de maio de 2024: Correio Braziliense, “Litoral do RS tem cidade superlotada com vítimas das enchentes”, 15/05/2024, com números atribuídos à prefeitura de Capão da Canoa e ao secretário municipal de Turismo, Marcelo Ramos; SBT News, 16/05/2024, com declarações de Augusto Cesar Roesler, presidente da Associação Comercial de Capão da Canoa e Xangri-Lá. Tramandaí: Jornal do Comércio, 03/09/2024 (revisão do plano diretor, com o prefeito Luiz Carlos Gauto) e 06/12/2024 (Secretaria Municipal de Administração). Os números de maio de 2024 e os de permanência em Tramandaí têm origem jornalística e administrativa, ficam sujeitos a revisão e carecem de equivalente censitário.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas passaram a morar no litoral norte gaúcho por causa das enchentes de 2024?
Não existe número oficial. Nenhum levantamento público mede o município de destino de quem se mudou depois da tragédia. O relato mais citado vem de Tramandaí, que cadastrou 13 mil pessoas acolhidas durante as cheias: o Jornal do Comércio publicou em 3 de setembro de 2024 que ao menos 2 mil ficaram na cidade e, em 6 de dezembro do mesmo ano, que 3 mil ficaram. Os dois valores saem do cadastro de acolhimento da prefeitura, um registro de assistência social atualizado por rotina de gestão.
Por que o Censo 2022 não mostra a migração provocada pelas enchentes de 2024?
Porque o Censo Demográfico fotografou a população em 31 de julho de 2022, cerca de 21 meses antes do início das cheias, em abril de 2024. Todo percentual de crescimento, origem e migração recente publicado a partir dele descreve o litoral norte antes do evento. O próximo levantamento universal do IBGE está previsto para 2030.
O que a pesquisa PEERS do IBGE mediu sobre as enchentes de 2024 no RS?
A Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, divulgada em 1º de julho de 2026, ouviu domicílios de 133 municípios das áreas mais atingidas entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026. Apurou 6.333.727 pessoas atingidas, 922.233 delas (14,6%) com mudança de endereço depois do desastre e 349.366 apontando a enchente como motivo. O universo da pesquisa é a área atingida, então ela quantifica quem saiu de casa, e o município de chegada fica fora das tabelas publicadas.
As estimativas anuais do IBGE captam a chegada de novos moradores ao litoral norte?
Não de forma direta. As estimativas municipais são um cálculo demográfico derivado dos censos anteriores e das estatísticas vitais, com data de referência em 1º de julho e finalidade legal de cálculo do Fundo de Participação dos Municípios. Entre a estimativa de 2024 e a de 2025, Tramandaí subiu de 56.296 para 56.430 habitantes, uma variação de 134 pessoas, enquanto a prefeitura falava em três mil moradores novos por ano.
Que dado ainda falta para medir a migração para o litoral norte depois de 2024?
Falta o recorte de destino: um levantamento que pergunte a quem chegou de onde veio e quando, no próprio município de chegada. Registros administrativos como matrícula escolar, cadastro do SUS e transferência de título eleitoral funcionam como indício, com viés conhecido de subcobertura e atraso. A pergunta censitária sobre residência anterior só volta ao campo no Censo 2030.