Costa Dorata

Casa de veraneio virando moradia fixa no litoral norte gaúcho

O Censo não tem uma categoria chamada casa de veraneio. Tem domicílio particular permanente de uso ocasional: o imóvel que, na data de referência, servia ocasionalmente de moradia, para descanso de fim de semana, férias ou outro fim. Arroio do Sal fechou 2022 com 72,4% dos domicílios nessa condição, a maior proporção entre os 5.570 municípios do Brasil, e Xangri-Lá com 70,7%.

Rua interna de condomínio fechado em Xangri-Lá, com casas contemporâneas, palmeiras, lago ao lado e moradores caminhando e de bicicleta

A categoria do IBGE é mais larga que a casa de praia

O manual do Censo Demográfico 2022 define o termo assim: domicílio particular permanente de uso ocasional é "o domicílio particular permanente que servia ocasionalmente de moradia na data de referência, ou seja, era o domicílio usado para descanso de fins de semana, férias ou outro fim, mesmo que, na data de referência, seus ocupantes ocasionais estivessem presentes". A última oração importa: uma casa cheia de gente no feriado continua sendo de uso ocasional, porque ninguém tem ali a residência principal.

O Censo separa os domicílios particulares permanentes em três situações. O ocupado tem morador e é onde a entrevista acontece. O vago não tinha morador na data de referência e tampouco era usado ocasionalmente. O de uso ocasional fica entre os dois: tem dono, está em condição de uso, recebe gente em algumas semanas do ano. No Brasil de 2022 eram 6,7 milhões de domicílios de uso ocasional e 11,4 milhões de vagos.

Uma diferença costuma passar batida. A categoria abarca a casa de veraneio, e também imóveis residenciais voltados para locação de curta duração e repúblicas de estudantes, desde que nenhum estudante use o imóvel como residência principal. Num balneário com estoque grande de aluguel de temporada, parte do percentual descreve inventário de locação, e o dado municipal do IBGE não separa as duas coisas.

A data de referência do Censo 2022 foi 31 de julho de 2022. Tudo o que os percentuais a seguir dizem se refere àquele dia, e o indicador conta imóveis, não pessoas.

Os quatro primeiros do Brasil são municípios gaúchos

A tabela 4711 do SIDRA publica, para cada um dos 5.570 municípios do país, quantos domicílios particulares permanentes estavam em cada situação em 2022. Ordenar todos por participação do uso ocasional nesse total coloca Arroio do Sal em primeiro lugar: 13.606 dos seus 18.794 domicílios particulares permanentes, ou 72,4%, contra 4.465 ocupados por moradores e 723 vagos.

Município Domicílios de uso ocasional % dos particulares permanentes
1. Arroio do Sal (RS)13.60672,4%
2. Xangri-Lá (RS)16.30470,7%
3. Cidreira (RS)16.20768,0%
4. Palmares do Sul (RS)10.54364,3%
5. Jaguaruna (SC)15.74563,7%
6. Balneário Pinhal (RS)12.21563,4%
7. Imbé (RS)20.36463,0%
8. Tibau (RN)3.53762,3%
9. Pontal do Paraná (PR)22.60661,4%
10. Matinhos (PR)27.48761,3%

Seis dos dez primeiros colocados do país ficam no Rio Grande do Sul, incluindo os quatro primeiros. O primeiro município de fora do estado é Jaguaruna, no litoral sul de Santa Catarina, em quinto. Depois dele vêm Tibau, no Rio Grande do Norte, e a dupla paranaense Pontal do Paraná e Matinhos. As praias que dominam a manchete de temporada ficam bem atrás nessa conta, porque o indicador é uma razão e elas têm população fixa grande: Cabo Frio aparece com 33,4%, Guarujá com 30,8% e Balneário Camboriú com 26,7%.

O litoral norte gaúcho não entra nessa lista em bloco. As sete cidades da faixa ocupam posições muito distantes umas das outras no mesmo ranking nacional.

Município % dos particulares permanentes Posição no país
Arroio do Sal72,4%1º
Xangri-Lá70,7%2º
Imbé63,0%7º
Capão da Canoa53,2%21º
Tramandaí46,0%34º
Torres37,3%66º
Maquiné29,2%133º

Entre Arroio do Sal e Maquiné há 43 pontos percentuais dentro da mesma faixa de orla e encosta. Torres, cidade de porte médio com vida urbana própria, marca 37,3%, pouco mais da metade da proporção de Arroio do Sal, o município vizinho ao sul. Maquiné, o único dos sete sem praia, registra 1.451 domicílios de uso ocasional em 4.966, ou 29,2%.

Capão da Canoa, a maior da faixa e a mais representada neste portal, marca 53,2%. É pouco mais da metade do estoque, contra sete em cada dez casas em Xangri-Lá, que faz divisa com ela. Duas cidades com a mesma praia e a mesma estrada de acesso operam com composições de moradia bem diferentes.

O estoque de veraneio cresceu, e isso muda a pergunta

A expressão "casa de veraneio virando moradia fixa" sugere um estoque que se esvazia à medida que os donos se mudam de vez. A série gaúcha vai na direção oposta. Na apuração estadual do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, a participação dos domicílios de uso ocasional no total de domicílios do estado era de 5,7% em 1991, subiu para 6,5% em 2000, chegou a 7,2% em 2010 e alcançou 8,6% em 2022, com crescimento de 49,4% em número absoluto entre os dois últimos censos. O SIDRA fecha 2022 com 458.544 domicílios gaúchos de uso ocasional, sobre 5.319.055 particulares permanentes.

O pano de fundo é um descolamento entre casas e gente. O total de domicílios do Rio Grande do Sul cresceu 25,6% entre 2010 e 2022, enquanto a população do estado avançou 1,8%. Constrói-se muito mais rápido do que se somam moradores, e a fatia dessa construção que fica fechada a maior parte do ano vem aumentando censo após censo.

Isso não elimina a hipótese da conversão. Muda o que ela precisaria explicar: um fluxo de casas saindo do uso ocasional teria de acontecer ao mesmo tempo em que outro fluxo, maior, entra. Os dois movimentos convivem, e o indicador publicado mostra apenas o saldo entre eles.

Por que a conversão é leitura, e não medida

O Censo fotografa a situação de cada domicílio num dia. Ele não acompanha o mesmo imóvel de um levantamento para o outro nem pergunta ao morador se aquela casa já foi de veraneio. O percentual de 2022 descreve 31 de julho de 2022, e a mesma casa pode ter mudado de situação antes ou depois sem deixar rastro nesse indicador.

O que existe é a coincidência de dois indicadores altos no mesmo lugar. Arroio do Sal passou de 7.740 para 11.057 habitantes entre os censos de 2010 e 2022, alta de 42,86%. Xangri-Lá saiu de 12.434 para 16.463, alta de 32,4%. No mesmo intervalo o Rio Grande do Sul cresceu 1,77% e o Brasil, 6,46%. As duas cidades com maior estoque de veraneio do país estão entre as que mais ganharam moradores.

A hipótese intuitiva tem lógica: uma cidade com sete em cada dez casas fechadas guarda, dentro do próprio estoque, uma reserva de moradia pronta, e quem decide se mudar de vez usa o que já tem, sem que a estatística registre uma casa nova. Só que outras explicações cabem igualmente bem nos mesmos números. O crescimento pode vir de compradores que ergueram casa do zero, de aluguel de longa duração, de filhos de moradores antigos formando domicílio próprio ou de trabalhadores atraídos pela própria construção civil que atende os veranistas. O dado disponível não distingue essas rotas. Quem chegou e de onde veio é assunto do panorama de migração das sete cidades.

Capão da Canoa serve de contraprova útil. A cidade cresceu mais que as duas do topo, 51,27%, saindo de 42.040 para 63.594 habitantes, e tem participação de uso ocasional bem menor, 53,2%. Se o estoque fechado fosse o motor único do crescimento, a ordem das duas listas seria a mesma. Ela não é.

O que muda numa cidade construída para sessenta dias por ano

Um estoque com esse perfil produz efeitos que qualquer visitante de julho reconhece: rua vazia, quadra inteira sem luz acesa, comércio com horário reduzido, prestador de serviço que atende quando dá. A cidade dimensiona escola, posto de saúde, coleta e abastecimento pela população residente, e absorve em janeiro uma demanda de outra ordem de grandeza.

Cada morador fixo acrescentado a essa base muda a conta devagar. Aumenta a receita recorrente do comércio fora da temporada, sustenta padaria aberta em junho, torna viável academia com horário integral e turma de escola completa em agosto. É um efeito cumulativo, que não aparece de um ano para o outro.

Um imóvel comprado para sessenta dias de uso e um imóvel comprado para o ano inteiro pedem coisas diferentes. O primeiro tolera portaria de temporada, internet instável e mercado que fecha em abril. O segundo depende de rede de saúde acessível, escola por perto, conexão estável e infraestrutura de lazer que funcione em julho, quando o vento sul torna a praia inviável e a quadra coberta vira o centro da vida do condomínio. É por isso que as implantações recentes de Xangri-Lá e de Capão da Canoa reservam área para sala de trabalho compartilhada, piscina aquecida e portaria que não fecha fora da temporada. Esse recorte é o assunto do artigo sobre condomínio fechado com uso anual no litoral norte, e aparece de outro ângulo no guia de aposentadoria no litoral norte gaúcho.

Dois limites deste texto merecem registro. Os empreendimentos reunidos neste portal vão até Curumim, no extremo norte de Capão da Canoa, e não alcançam Arroio do Sal, que entra aqui como caso estatístico. E os números são demográficos: eles não sustentam projeção de valorização, que depende de oferta, custo de obra, crédito e localização específica.

Há ainda uma ressalva de calendário. O retrato é de julho de 2022. As enchentes de maio de 2024 vieram depois dele, e o que já foi medido sobre o deslocamento que elas provocaram está reunido num levantamento à parte.

Seis checagens antes de aceitar um número de casa de veraneio

Percentuais de uso ocasional circulam bastante e nem sempre com o mesmo significado. Estas são as seis perguntas que separam um número utilizável de um número que parece dizer mais do que diz.

  1. Qual é o denominador? Os mesmos 13.606 domicílios de Arroio do Sal dão 72,4% sobre os 18.794 particulares permanentes, 72,1% sobre os 18.880 domicílios recenseados de qualquer espécie e 95,0% sobre os 14.329 que estavam desocupados. O SIDRA publica as três bases, e a primeira é a do indicador oficial.
  2. O ranking é estadual ou nacional? Uma posição citada como nacional precisa vir de um levantamento que tenha comparado os 5.570 municípios do país. Cadernos estaduais, inclusive o do Rio Grande do Sul, ordenam só os municípios do próprio estado, e a maioria dos percentuais que circulam vem deles.
  3. Uso ocasional é o mesmo que imóvel vago? Não. São duas linhas separadas do Censo: o Brasil tinha 6.676.988 domicílios de uso ocasional e 11.400.705 vagos em 2022. Somar as duas produz um número de "imóveis fechados" que não descreve estoque de veraneio nenhum.
  4. Que categoria está sendo contada? Uso ocasional inclui locação de curta duração e repúblicas de estudantes. Ler o número inteiro como casa de família no litoral superestima o segmento.
  5. Qual é a data de referência? Todo dado do Censo 2022 descreve 31 de julho de 2022, e não o ano corrente nem a média do período.
  6. A afirmação é sobre estoque ou sobre movimento? O Censo mede quantos imóveis estavam em cada situação num dia. Ele não segue o mesmo imóvel ao longo do tempo, então nenhuma taxa de conversão sai dele.

Fontes: IBGE, Censo Demográfico 2010 e 2022. Os percentuais municipais e as posições nacionais deste texto foram calculados sobre a contagem de domicílios por espécie do SIDRA, tabela 4711, variável 617, categorias "particular permanente" e "particular permanente não ocupado, de uso ocasional", para os 5.570 municípios, consultada em 23/08/2026. Definição de espécie de domicílio, data de referência e totais nacionais em "Censo Demográfico 2022: Tipos de domicílios coletivos, improvisados, de uso ocasional e vagos" (IBGE, setembro de 2024). População municipal e estadual via SIDRA, tabela 4709. A série gaúcha de 1991 a 2010 vem de "Cadernos RS no Censo 2022, Domicílios" (Departamento de Economia e Estatística, Secretaria de Planejamento do RS, abril de 2025), apuração estadual que ordena apenas municípios gaúchos e chega aos mesmos percentuais de 2022. Circula também o valor de 72,1% para Arroio do Sal: ele divide os mesmos 13.606 domicílios pelos 18.880 recenseados de qualquer espécie, base que inclui os coletivos e os improvisados. Sobre os 18.794 particulares permanentes, que é a base do indicador, o resultado é 72,4%.

Perguntas frequentes

O que o IBGE considera domicílio de uso ocasional?

É o domicílio particular permanente que servia ocasionalmente de moradia na data de referência do Censo, usado para descanso de fim de semana, férias ou outro fim, mesmo que seus ocupantes ocasionais estivessem presentes naquele dia. É categoria distinta do domicílio ocupado, que tem morador, e do vago, que não tinha morador nem uso ocasional. Além da casa de veraneio, ela abarca imóveis de locação de curta duração e repúblicas de estudantes.

Qual cidade brasileira tem a maior proporção de domicílios de uso ocasional?

Arroio do Sal, no litoral norte do Rio Grande do Sul, com 72,4% dos domicílios particulares permanentes nessa condição no Censo 2022. É a maior proporção entre os 5.570 municípios do país, calculada sobre a tabela 4711 do SIDRA. Vêm em seguida Xangri-Lá, com 70,7%, e Cidreira, com 68,0%, também gaúchas. Seis dos dez primeiros do Brasil ficam no Rio Grande do Sul, e o primeiro de fora do estado é Jaguaruna, em Santa Catarina, quinto colocado com 63,7%.

O Censo 2022 mede a conversão de casa de veraneio em moradia fixa?

Não. O Censo fotografa a situação de cada domicílio em 31 de julho de 2022 e informa quantos estavam em uso ocasional naquela data. Ele não acompanha o mesmo imóvel ao longo do tempo nem registra mudança de uso. A conversão de segunda residência em moradia permanente é uma interpretação plausível para o crescimento populacional dessas cidades, não um número medido pelo levantamento.

O estoque de casas de veraneio do Rio Grande do Sul está diminuindo?

Não. A participação dos domicílios de uso ocasional no total de domicílios gaúchos subiu de 5,7% em 1991 para 6,5% em 2000, 7,2% em 2010 e 8,6% em 2022. Em número absoluto, o crescimento entre 2010 e 2022 foi de 49,4%, e o estado fechou 2022 com 458.544 domicílios nessa condição. O estoque de segunda residência vem aumentando, censo após censo.

Quanto Capão da Canoa tem de domicílios de uso ocasional?

53,2% no Censo 2022, o sétimo maior percentual do Rio Grande do Sul e o 21º do Brasil. É bem menos que os 70,7% de Xangri-Lá e os 72,4% de Arroio do Sal, ainda que a cidade tenha crescido mais que as duas no período, de 42.040 para 63.594 habitantes entre 2010 e 2022. Na mesma faixa, Imbé aparece com 63,0%, Tramandaí com 46,0% e Torres com 37,3%.