Torres, no RS: quantos moradores nasceram em Santa Catarina
Chamar Torres de cidade meio catarinense descreve mal o que o Censo 2022 mediu. Entre os moradores do município, 7,90% nasceram em Santa Catarina, a maior fatia registrada nas sete cidades do litoral norte gaúcho levantadas pelo IBGE, enquanto 88,50% nasceram no próprio Rio Grande do Sul. Santa Catarina é a origem externa mais forte de Torres, não a origem majoritária.
Os números de Torres no Censo 2022
Torres tinha 41.751 habitantes quando o IBGE fechou a coleta do Censo Demográfico 2022, contra 34.656 em 2010. São 7.095 pessoas a mais em doze anos, ou 20,47%. Da população recenseada, 88,50% nasceram no Rio Grande do Sul e 7,90% nasceram em Santa Catarina. Outros 30,07% dos moradores, independentemente de onde nasceram, chegaram ao município nos últimos dez anos.
Esses quatro indicadores medem coisas diferentes e costumam ser lidos como se medissem a mesma. Local de nascimento é acervo: conta quem nasceu ali e nunca saiu, quem nasceu fora e chegou aos três anos de idade, quem chegou aos sessenta. Migração recente é fluxo: conta quem se mudou dentro de uma janela de dez anos, sem perguntar onde nasceu. Um município pode ter presença catarinense alta e movimento recente baixo, e é exatamente o caso de Torres.
Torres tem a maior presença catarinense do litoral norte gaúcho
Entre as seis cidades da região que tiveram a composição por local de nascimento publicada no Censo 2022, Torres lidera com folga na fatia nascida em Santa Catarina, e é a única que fica abaixo de 90% de nascidos no Rio Grande do Sul.
| Cidade | Nasc. no RS | Nasc. em SC | Migrantes (10 anos) |
|---|---|---|---|
| Torres | 88,50% | 7,90% | 30,07% |
| Xangri-lá | 90,09% | 5,81% | 34,66% |
| Arroio do Sal | 92,70% | 4,78% | 44,3% |
| Capão da Canoa | 92,46% | 3,71% | 32,5% |
| Maquiné | 95,40% | 2,59% | 20,01% |
| Tramandaí | 94,77% | 2,48% | 31,15% |
| Imbé | sem dado | sem dado | sem dado |
A distância até a divisa explica boa parte da ordem. Torres é o município gaúcho mais ao norte da faixa litorânea, com a fronteira estadual a poucos quilômetros do centro, e tem mais que o dobro da presença catarinense de Capão da Canoa e mais que o triplo da de Tramandaí. Quanto mais ao sul, menor o percentual.
A regra funciona bem, com uma quebra que vale registrar: Xangri-lá aparece com 5,81%, acima de Arroio do Sal (4,78%) e de Capão da Canoa (3,71%), apesar de estar mais ao sul que as duas. Ou seja, o gradiente geográfico não é a única força em jogo, e o Censo não fornece o dado que permitiria testar as demais hipóteses, porque não informa de qual cidade catarinense cada morador veio.
Entre quem veio de fora do RS, quase dois terços são catarinenses
O recorte de migração recente conta outra história sobre o mesmo município. Dos moradores de Torres em 2022, 30,07% haviam chegado nos dez anos anteriores. A maior parte dessas chegadas é gaúcha: em todas as cidades do litoral norte com dado publicado, de 85% a 94% de quem chegou recentemente veio de outro município do próprio Rio Grande do Sul.
A fatia interestadual é minoritária dentro desse fluxo, e é dentro dela que Santa Catarina reaparece com peso desproporcional: quase 65% dos migrantes recentes de Torres vindos de fora do estado nasceram em Santa Catarina. O padrão se repete nas outras seis cidades do levantamento, em escala menor.
Os dois números juntos, 7,90% de acervo e quase 65% do fluxo interestadual, descrevem uma ligação que não é episódica. A presença catarinense em Torres não depende de uma onda migratória recente para existir, e continua sendo alimentada por chegadas novas.
Torres cresceu menos que as vizinhas, e ainda assim 11,5 vezes mais que o RS
Torres tem o crescimento mais moderado entre as cidades de praia do litoral norte gaúcho no período 2010-2022. Imbé cresceu 51,80%, Capão da Canoa 51,27%, Arroio do Sal 42,86%, Xangri-lá 32,41% e Tramandaí 30,79%. Torres ficou em 20,47%.
A referência muda a leitura desse número. O Rio Grande do Sul cresceu 1,77% entre os dois censos e o Brasil cresceu 6,46%. Os 20,47% de Torres equivalem a cerca de 11,5 vezes o ritmo do estado e a mais de três vezes o do país. É o piso da região, não um município parado.
Vale reparar também na taxa de migração recente: os 30,07% de Torres são a menor marca entre as cinco cidades de praia com dado, atrás de Arroio do Sal (44,3%), Xangri-lá (34,66%), Capão da Canoa (32,5%) e Tramandaí (31,15%). Só Maquiné, município majoritariamente rural e fora da dinâmica de segunda residência, aparece abaixo, com 20,01%. Torres combina, portanto, a maior fatia catarinense da região com a menor renovação de vizinhança entre as cidades de praia.
O paradoxo do saldo migratório entre RS e SC
No agregado estadual, o fluxo entre os dois estados corre no sentido contrário ao que Torres sugere. O Rio Grande do Sul teve saldo migratório negativo de 77.839 pessoas entre 2017 e 2022, e 63,5% de quem deixou o estado foi para Santa Catarina, segundo o caderno "RS no Censo 2022: Migração e Fecundidade", do Departamento de Economia e Estatística da SPGG-RS, publicado em novembro de 2025.
As duas coisas convivem porque descrevem escalas distintas. O estado perde população líquida para o vizinho do norte, sobretudo em direção aos polos econômicos catarinenses, enquanto na faixa de fronteira litorânea o trânsito é local e vai nas duas direções. Quem mora em Torres e trabalha em Passo de Torres, quem estuda de um lado e mora do outro, quem tem família dividida pela divisa: nada disso aparece como migração interestadual de longa distância, mas aparece no local de nascimento de quem foi recenseado.
Para quem avalia a região como destino de moradia, o efeito prático é que Torres opera com um mercado de trabalho, de serviços e de consumo que não termina no limite do estado. O restante do litoral norte gaúcho, tratado em detalhe no panorama de migração das sete cidades, funciona com uma bacia bem mais fechada, alimentada quase inteiramente por gaúchos que trocam de município.
O que esses números não dizem
Três limites precisam acompanhar qualquer leitura desses percentuais. O primeiro é de granularidade do indicador de nascimento: o Censo 2022 não republicou a tabela de naturais do próprio município nesse nível, então o dado disponível é o de nascidos na unidade da federação. Os 88,50% de Torres contam qualquer pessoa nascida em qualquer cidade gaúcha, de Uruguaiana a Pelotas, e não apenas quem nasceu em Torres. Serve como proxy regional de origem, nunca como medida de quantos torrenses são de berço.
O segundo é de resolução da origem externa. O SIDRA desagrega origem apenas por estado, então dizer que 7,90% nasceram em Santa Catarina é o máximo de precisão disponível. Não há como saber quantos vieram de Passo de Torres, de Araranguá, de Criciúma ou de Florianópolis a partir de dado censitário público.
O terceiro é de calendário, e é o mais relevante em 2026. O Censo fotografou a população em agosto de 2022, quase dois anos antes das enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. A imprensa regional relata uma onda adicional de chegada ao litoral depois da crise, e a pesquisa do IBGE sobre o desastre mede quem saiu de casa, não o destino de quem chegou: ver o que se sabe e o que falta medir sobre a migração pós-enchentes de 2024. Os percentuais deste artigo devem ser lidos como piso conhecido, com margem para cima. Imbé, por sua vez, ficou sem detalhamento de origem nesta apuração e por isso aparece com o campo em branco na tabela.
Os 3,60% que não são gaúchos nem catarinenses
Sobra uma fatia pequena e reveladora. Se 88,50% dos moradores de Torres nasceram no Rio Grande do Sul e 7,90% em Santa Catarina, os 3,60% restantes reúnem todos os outros estados brasileiros e o exterior somados. É menos do que a mesma conta devolve para Xangri-lá (4,10%) e para Capão da Canoa (3,83%), e mais do que devolve para Tramandaí (2,75%), Arroio do Sal (2,52%) e Maquiné (2,01%).
O diferencial demográfico de Torres, portanto, tem endereço. A cidade não recebe mais gente de fora do Rio Grande do Sul do que suas vizinhas do sul recebem: recebe mais gente de um estado específico, o que está do outro lado do rio Mampituba. Quem estuda a região olhando para Capão da Canoa, Xangri-Lá ou Atlântida está lendo um mercado abastecido por gaúcho de outro município, movimento detalhado no artigo sobre quem troca a capital pelo litoral. Torres tem esse mesmo motor e mais um, catarinense, que nenhuma das outras seis cidades tem na mesma proporção.
Fonte dos dados demográficos: IBGE, Censo Demográfico 2010 e 2022, via SIDRA, sistema de recuperação automática do IBGE (tabelas 202, 631, 3182, 4709, 9866, 10158, 10159 e 10160). Contexto de saldo migratório estadual: caderno "RS no Censo 2022: Migração e Fecundidade", DEE/SPGG-RS, novembro de 2025. Os percentuais de nascidos fora do RS e de SC são o complemento aritmético dos dois percentuais publicados por cidade.
Perguntas frequentes
Quantos moradores de Torres nasceram em Santa Catarina?
7,90% da população de Torres nasceu em Santa Catarina, segundo o Censo 2022 do IBGE. É a maior participação catarinense entre as cidades do litoral norte gaúcho medidas nesse levantamento, à frente de Xangri-lá (5,81%), Arroio do Sal (4,78%), Capão da Canoa (3,71%), Maquiné (2,59%) e Tramandaí (2,48%).
A maioria da população de Torres é catarinense?
Não. No Censo 2022, 88,50% dos moradores de Torres nasceram no Rio Grande do Sul e 7,90% nasceram em Santa Catarina. Santa Catarina é a origem de fora do estado mais presente na cidade, e ainda assim responde por menos de um morador em cada doze.
De onde vêm os migrantes recentes de Torres?
Em Torres, 30,07% da população chegou nos últimos dez anos. A maior parte dessas chegadas veio de outro município do próprio Rio Grande do Sul, faixa que fica entre 85% e 94% em todas as cidades do litoral norte com dado publicado. Entre os que vieram de fora do estado, quase 65% nasceram em Santa Catarina.
Quanto Torres cresceu entre 2010 e 2022?
Torres passou de 34.656 para 41.751 habitantes entre os censos de 2010 e 2022, um acréscimo de 7.095 pessoas e crescimento de 20,47%. É o avanço mais moderado entre as cidades de praia do litoral norte gaúcho, e mesmo assim equivale a cerca de 11,5 vezes o ritmo do Rio Grande do Sul no período, que foi de 1,77%.
Por que Torres tem mais catarinenses que Capão da Canoa ou Tramandaí?
Pela proximidade da divisa. Torres é o município gaúcho mais ao norte da faixa litorânea, colado em Santa Catarina, e registra 7,90% de moradores nascidos no estado vizinho, contra 3,71% em Capão da Canoa e 2,48% em Tramandaí. O Censo 2022 não informa de qual cidade catarinense essas pessoas vieram, apenas a unidade da federação de nascimento.