Costa Dorata

Novo urbanismo: o que é e como funciona um bairro caminhável

O que faz alguém deixar o carro parado e resolver a manhã inteira a pé, da padaria à praça? O novo urbanismo responde no desenho: bairros compactos, de uso misto, com ruas pensadas para quem caminha e as tarefas do dia a dia ao alcance de uma caminhada. A ideia vem de Jane Jacobs e de Jan Gehl e ganhou carta própria em 1996.

Ilustração de um pai com a filha nos ombros caminhando por uma rua de pedestres arborizada, com mesas de café ao ar livre e edifícios ao fundo, imagem do pilar Ruas para pessoas do Barra Norte, da DeMello Incorporações, em Capão da Canoa
Ilustração com que a DeMello Incorporações apresenta o pilar Ruas para pessoas do Barra Norte, em Capão da Canoa: rua de pedestres arborizada, com mesas ao ar livre. A imagem é ilustrativa.

O termo ganhou forma institucional nos Estados Unidos, com o Congress for the New Urbanism, criado em 1993, mas se apoia em ideias mais antigas, publicadas por Jane Jacobs em 1961 e por Jan Gehl a partir de 1971. As expressões "cidade para pessoas" e "bairro caminhável" apontam para o mesmo conjunto de princípios: uso misto, quadras curtas, térreos abertos para a rua e destinos cotidianos ao alcance dos pés. No litoral norte gaúcho, o vocabulário aparece na apresentação do Barra Norte, bairro planejado da DeMello Incorporações em Capão da Canoa, usado como exemplo na parte final.

O que é novo urbanismo, segundo a Carta de 1996

O Congress for the New Urbanism (CNU) reúne arquitetos, urbanistas, incorporadores, gestores públicos e acadêmicos. Nasceu como reação ao subúrbio norte-americano do pós-guerra, em que morar, trabalhar e comprar foram parar em lugares separados, ligados entre si quase só por automóvel. Em 1996, o grupo adotou a Carta do Novo Urbanismo, assinada em Charleston, na Carolina do Sul, com 27 princípios distribuídos em três escalas: a região (metrópole, cidade e vila), o bairro (com o distrito e o corredor) e a quadra (com a rua e o edifício). Uma emenda aprovada em 2024 acrescentou sete princípios ao texto original.

Quatro trechos da Carta, em tradução livre, concentram a ideia de bairro caminhável:

  • os bairros devem ser compactos, amigáveis ao pedestre e de uso misto;
  • muitas atividades da vida diária devem acontecer a uma distância que se percorre a pé, o que dá independência a quem não dirige, em especial idosos e jovens;
  • ruas e praças devem ser seguras, confortáveis e interessantes para o pedestre;
  • dentro do bairro, uma variedade de tipos de moradia e de faixas de preço aproxima no cotidiano pessoas de idades e rendas diferentes.

Caminhabilidade, tradução corrente de walkability, é o nome do resultado: o quanto o ambiente permite e convida a fazer o dia a dia a pé. Depende da calçada e, na mesma medida, do que existe ao longo dela.

Jane Jacobs e os "olhos da rua"

A base intelectual veio três décadas antes da Carta. Em 1961, a jornalista e ativista Jane Jacobs publicou The Death and Life of Great American Cities, traduzido no Brasil como Morte e vida de grandes cidades. O livro atacava a renovação urbana da época, que derrubava quarteirões tradicionais para abrir vias expressas. Segundo reportagem do Jornal da USP, nos anos 1960 Jacobs foi uma das responsáveis por barrar o projeto de Robert Moses de uma via expressa elevada que cortaria Manhattan.

Duas imagens do livro atravessaram as décadas. A primeira é a dos olhos da rua: a calçada se torna mais segura quando há gente que a observa naturalmente, de dentro de lojas, janelas e bares, ao longo do dia. A segunda é o balé das calçadas, a coreografia cotidiana de quem sai, chega, compra, conversa e espera. As duas dependem de gente com motivo para estar ali.

Jacobs listou as condições que, para ela, geravam essa diversidade. O distrito precisa servir a mais de um uso principal, de preferência mais de dois, para que haja pessoas na rua em horários diferentes. A maior parte das quadras deve ser curta, o que multiplica esquinas e trajetos possíveis. Os edifícios precisam variar em idade e condição. E é necessária uma concentração suficiente de pessoas. Na leitura dela, faltando qualquer uma das quatro, a vida de rua não se sustentava.

A recepção brasileira tem ressalvas. Na mesma reportagem, o professor Renato Cymbalista, da USP, afirma que a reflexão central de Jacobs segue válida, a de que cidade e ruas são organismos complexos, mas pondera que o livro não é um manual de construção de cidades: o Estado, com investimento e regulação, é mediação essencial, e ela tratava a cidade como algo que se autorregula. Cymbalista acrescenta que Jacobs não podia prever cidades tomadas pelo turismo e por processos de gentrificação, observação que pesa num litoral que vive de temporada.

Jan Gehl e a cidade para pessoas: a escala de quem caminha

O arquiteto dinamarquês Jan Gehl publicou em 1971, na Dinamarca, o livro que chegaria ao inglês em 1987 como Life Between Buildings, escrito como protesto contra o planejamento funcionalista que dominava a construção de bairros residenciais. Em 2010 saiu Cities for People, editado no Brasil pela Perspectiva como Cidades para pessoas.

A frase de Gehl mais citada resume o método: primeiro a vida, depois os espaços, por fim os edifícios, porque o caminho inverso não funciona. Em Cities for People, ele parte da velocidade de quem anda, cerca de 5 km/h, ritmo em que o olho capta detalhes; em velocidades maiores, só formas gerais. Gehl dá grande peso às bordas ativas e abertas no térreo: unidades estreitas, muitas portas, vitrines e detalhes que se possam tocar e ler.

Ilustração de um casal diante de uma vitrine numa rua de comércio para pedestres, com guarda-sóis, canteiros e edifícios com varandas ao fundo, imagem do pilar Destino urbano do Barra Norte, da DeMello Incorporações
Ilustração de um casal diante de uma vitrine numa rua de comércio para pedestres, com guarda-sóis, canteiros e edifícios com varandas ao fundo, imagem do pilar Destino urbano do Barra Norte, da DeMello Incorporações

É daí que vem a expressão fachada ativa, que saiu dos livros e entrou na lei. O Plano Diretor Estratégico de São Paulo, de 2014 (Lei 16.050), passou a usar a fachada ativa como instrumento para estimular uso público no térreo dos edifícios, ao lado do alargamento de calçadas e da limitação de muros.

Como reconhecer um bairro caminhável na prática

Para tirar a caminhabilidade do campo da impressão, o ITDP Brasil criou o Índice de Caminhabilidade (iCam), criado em 2016 e atualizado na versão 2.0 em 2018, com 15 indicadores agrupados em seis categorias: calçada, mobilidade, atração, segurança viária, segurança pública e ambiente. Entre os pontos medidos estão largura e pavimento da calçada, dimensão das quadras, fachadas física e visualmente permeáveis, uso público de dia e à noite, travessias, iluminação e sombra.

A mesma lógica serve numa visita, sem planilha:

Sinal no bairroO que observar no localDe onde vem a ideia
Calçada contínuaLargura para cruzar com um carrinho de bebê, piso regular, sem degrau a cada entrada de garagemiCam, categoria calçada
Quadras curtasEsquinas frequentes e mais de um trajeto possível até o mesmo destinoJane Jacobs; iCam, mobilidade
Térreo aberto para a ruaPortas próximas umas das outras, vitrines, pouca parede cega e pouco muroJan Gehl; iCam, atração
Uso mistoMoradia, comércio, serviço e lazer no mesmo trecho, sem uma zona para cada funçãoCarta do Novo Urbanismo; Jacobs
Destinos a péMercado, farmácia, padaria, praça e escola ao alcance de uma caminhadaCarta do Novo Urbanismo
Gente na rua em horas diferentesMovimento de manhã, à tarde e à noite, inclusive em dia útilJacobs, olhos da rua; iCam, segurança pública
Conforto ambientalÁrvores, marquises e abrigo contra sol, vento e chuvaiCam, ambiente
Travessia seguraFaixas bem posicionadas e velocidade baixa dos carrosiCam, segurança viária
Ilustração de uma mulher passeando com dois cachorros por uma calçada larga, separada da pista por um canteiro com árvores, e edifícios com comércio no térreo ao fundo, imagem do pilar Espaços de encontro do Barra Norte
Ilustração de uma mulher passeando com dois cachorros por uma calçada larga, separada da pista por um canteiro com árvores, e edifícios com comércio no térreo ao fundo, imagem do pilar Espaços de encontro do Barra Norte

Um teste simples resume a tabela: sair a pé às dez da manhã de uma terça-feira e anotar quantas tarefas reais se resolvem em vinte minutos de caminhada. A resposta costuma dizer mais que a planta do bairro.

O que um bairro caminhável não é

Calçada bonita sem destino. Passeio largo, arborizado e bem iluminado que liga a casa a lugar nenhum serve para a caminhada do fim de tarde. A ida ao mercado continua de carro. A caminhabilidade se mede pelo que a calçada alcança.

Qualquer bairro planejado. Planejar não garante prioridade ao pedestre. O próprio subúrbio contra o qual o CNU se organizou foi, em grande parte, planejado: ruas sem saída, comércio concentrado em centros acessíveis só por rodovia, moradia separada de todo o resto. Bairro planejado é uma categoria de produto; caminhável é uma qualidade que o desenho pode ter ou não.

Rua interna de perímetro fechado. Rua interna de baixa velocidade agrada a quem tem criança de bicicleta, mas a Carta fala de ruas e praças como espaços de uso compartilhado da cidade, e muro contínuo na borda é o oposto da fachada ativa para quem está do lado de fora. É aqui que o conceito esbarra no modelo que domina o litoral gaúcho, e a escolha entre os dois tem custo e benefício nos dois sentidos.

Críticas e limites do novo urbanismo

O caso mais citado é o de Seaside, na Flórida, cujo plano e código urbanístico foram desenvolvidos entre 1979 e 1983 por Andrés Duany e Elizabeth Plater-Zyberk, que depois estariam entre os fundadores do CNU. A cidade serviu de cenário para o filme O Show de Truman, e os críticos usaram a coincidência como argumento: um lugar controlado por código rígido pode parecer cenografia, bonito e sem a vida espontânea que Jacobs descrevia.

Outras críticas recorrentes, que valem como pontos de atenção e não como veredito:

  • Área nova longe de tudo. Projetos erguidos em terreno vazio, distantes de emprego e de comércio já existente, podem ter ruas desenhadas para o pedestre e moradores que continuam dependendo do carro para quase tudo.
  • Diversidade difícil de entregar. A Carta pede variedade de tipos de moradia e de faixas de preço, e críticos apontam que poucos empreendimentos do movimento incluíram moradia acessível.
  • O tempo que a teoria pede. Uma das condições de Jacobs, edifícios de idades variadas, um bairro novo não tem por definição. Comércio de térreo também só se firma com gente suficiente morando e circulando.
  • A temporada. Os olhos da rua exigem presença em horários e estações diferentes. Num balneário, a população oscila entre verão e inverno, e o mesmo térreo pode estar cheio em janeiro e fechado no resto do ano.

Novo urbanismo no litoral gaúcho: o Barra Norte como exemplo

Em Capão da Canoa, a DeMello Incorporações apresenta o Barra Norte Capão da Canoa como bairro planejado de novo urbanismo, com urbanismo e estudo vertical de ocupação dos escritórios Sólido e Ideia1. A incorporação cita Gehl ("primeiro a vida, depois os espaços e, por fim, os edifícios") e Jacobs (diversidade de usos, proximidade e presença de pessoas), descreve o projeto como uma nova parte da cidade e não como empreendimento isolado, e o situa no vetor de continuidade de Capão da Canoa, conectado à cidade existente e aos principais eixos de circulação da região. O mapa divulgado pela incorporação tem como referências o mar, a Avenida Paraguassu, o centro de Capão da Canoa, a Estrada do Mar e a Lagoa dos Quadros. Segundo a DeMello, o bairro será aberto, com parques e comércio de uso livre, e os condomínios fechados implantados dentro dele terão acesso restrito; a área comercial prevê lojas voltadas para a rua.

Os pilares com que a DeMello descreve o bairro conversam diretamente com os conceitos das seções anteriores:

Pilar, nas palavras da DeMelloComo a incorporação o descreveConceito correspondente
Ruas para pessoasCalçadas qualificadas, acessibilidade, iluminação pública, mobiliário urbano, fachadas ativas, percursos conectados e os "olhos do bairro"Olhos da rua (Jacobs); térreo ativo (Gehl)
Tudo mais pertoMoradia, comércio, serviços, lazer e natureza conectados no mesmo bairroUso misto e destinos a pé (Carta)
Cidade vivaPraças, áreas de lazer, espaços públicos e ambientes compartilhadosRuas e praças de uso compartilhado (Carta)
Infraestrutura verdeLagos, áreas arborizadas e parque linear organizando o territórioConforto ambiental e sombra (iCam)
Espaços de encontroCalçadas generosas, arborização e áreas abertasEscala humana (Gehl)
Destino urbanoUma centralidade para quem mora, trabalha, circula e visitaMais de um uso principal (Jacobs)
Ilustração de uma praça do Barra Norte, da DeMello Incorporações, com mesas ao ar livre sob marquises de madeira e edifícios com vegetação nas varandas ao fundo
Ilustração de uma praça do Barra Norte, da DeMello Incorporações, com mesas ao ar livre sob marquises de madeira e edifícios com vegetação nas varandas ao fundo

O que ainda não se sabe pesa tanto quanto o que foi dito. A implantação é prevista em fases, cada uma tratada de forma independente, e nenhuma unidade está à venda nesta etapa. Não foram divulgados quais comércios e serviços existirão nem como serão as quadras. A DeMello informa que a entrada da área fica a cerca de 900 metros da praia e a cerca de 12 minutos dos centros de Capão da Canoa e de Atlântida, e que a fase 1 está em licenciamento. Os sinais da tabela de reconhecimento, quadra curta, térreo aberto e destino a pé, só poderão ser conferidos quando as fases forem detalhadas. As imagens publicadas pela incorporação são ilustrativas.

O conceito aparece de outras formas na região. O Nautilus Marina Bairro, em Xangri-Lá, é um bairro planejado à beira da Lagoa do Passo com perímetro cercado e acesso único, e reúne comércio, gastronomia e praças do lado de dentro. O Grand Lake Osório, outro bairro planejado da DeMello, tem projeto de urbanismo do Grupo Sólido e se organiza em torno de praias de lago, orla e alameda comercial. Em condomínios fechados, a versão mais comum é a rua comercial ou o mall privativo; na cidade já consolidada, a rotina a pé tem exemplos como a Avenida Central de Atlântida.

Foto aérea da orla de Capão da Canoa, com a faixa de areia, o mar e os edifícios da cidade
Foto aérea da orla de Capão da Canoa, com a faixa de areia, o mar e os edifícios da cidade

Capão da Canoa, nas palavras da própria incorporação, cresceu e virou moradia permanente além de destino de verão, e é essa população de ano inteiro que tende a decidir se um térreo comercial sobrevive a julho. Fica a pergunta que só quem vai morar consegue responder: no seu dia a dia de litoral, vale mais ter a praça, o café e o mercado a uma caminhada, numa rua aberta que a cidade inteira usa, ou o portão com tudo do lado de dentro e o carro para o resto?

Perguntas frequentes

O que é novo urbanismo?

Novo urbanismo é um movimento de urbanistas, arquitetos e incorporadores organizado nos Estados Unidos a partir de 1993, com a criação do Congress for the New Urbanism. A Carta do Novo Urbanismo, adotada em 1996, defende bairros compactos, amigáveis ao pedestre e de uso misto, com muitas atividades do dia a dia a uma distância que se faz a pé, e ruas e praças seguras, confortáveis e interessantes para quem caminha. O movimento reagia ao subúrbio dependente do carro.

Qual a relação de Jane Jacobs e Jan Gehl com o bairro caminhável?

Jane Jacobs, em Morte e vida de grandes cidades (1961), defendeu ruas com usos variados, quadras curtas e gente circulando em horários diferentes, e cunhou a ideia dos olhos da rua: a calçada fica mais segura quando há pessoas que a observam de lojas, janelas e bares. Jan Gehl, arquiteto dinamarquês, autor de Cidades para pessoas, propôs planejar primeiro a vida, depois os espaços e só então os edifícios, com atenção à escala de quem anda a pé e aos térreos ativos.

Como saber se um bairro é caminhável?

Observe se a calçada é contínua, larga e regular; se as quadras são curtas e oferecem caminhos alternativos; se o térreo tem portas e vitrines em vez de muro; se mercado, farmácia, praça e escola ficam ao alcance de uma caminhada; se há sombra, iluminação e travessias seguras; e se há gente na rua de manhã, à tarde e à noite. O Índice de Caminhabilidade do ITDP Brasil organiza esses pontos em 15 indicadores e seis categorias: calçada, mobilidade, atração, segurança viária, segurança pública e ambiente.

O Barra Norte, em Capão da Canoa, é um bairro de novo urbanismo?

A DeMello Incorporações apresenta o Barra Norte como um bairro planejado de novo urbanismo em Capão da Canoa, com urbanismo e estudo vertical de ocupação dos escritórios Sólido e Ideia1, e associa o projeto às ideias de Jan Gehl e Jane Jacobs: ruas para pessoas, fachadas ativas, uso misto, lagos, áreas arborizadas e parque linear. A implantação é prevista em fases, e nenhuma unidade está à venda nesta etapa. A DeMello confirma área comercial, com as lojas voltadas para a rua, mas quais comércios e serviços haverá e o desenho das quadras ainda não foram divulgados.